domingo, 24 de fevereiro de 2013

HISTÓRIA DA CONTRACEPÇÃO (1)


 

HISTÓRIA DA CONTRACEPÇÃO

 

Desde a formação das pequenas sociedades humanas, que a contracepção foi um processo importante para garantir a sobrevivência e melhorar as condições de vida dessas mesmas sociedades.
          Ao longo dos séculos, o homem foi utilizando práticas empíricas e mais tarde científicas para regular a sua fecundidade, interferindo nas suas quatro fases: relação sexual, concepção, gestação e pós-nascimento.
           As relações sexuais foram sempre influenciadas por factores sociais: primeiras relações, celibato e abstinência. No que se refere à anticoncepção, procurou-se impedir o contacto dos espermatozóides com o óvulo ou mesmo recorrendo à esterilização. Nos dois últimos factores, gestação e pós-nascimento, recorreu-se às duas únicas possibilidades, interrupção da gravidez e ao infanticídio.
          Para os estudiosos da demografia todas estas estratégias fazem parte das medidas antinatalistas, que visam controlar e diminuir a natalidade, que no plano das intenções põe no mesmo pé controle da natalidade e anticoncepção.
           Mas historicamente foi Soranos de Éfeso, o maior ginecologista da antiguidade, que viveu de 98 a 138, que no tempo de Adriano, estabeleceu com precisão a diferença entre anticoncepção - que impede a concepção e o aborto - que terminava com a vida do feto. Na actualidade nós chamamos contracepção à utilização de qualquer método temporário e reversível que impeça a gravidez.
          Na história da contracepção, independentemente dos métodos utilizados, tem estado sempre presente o conservadorismo ou a mudança, a tradição ou o progresso, a fé ou a razão. E é por isso que ao longo dos séculos e consoante as sociedades em questão, a contracepção será proscrita por razões morais, sendo a procriação uma obrigação sagrada na óptica naturalista, fatalista, pondo o homem ao serviço duma vontade superior, sem lhe deixar outra escolha.
           Ciência e moralidade dependente de religiões, estão quase sempre em planos opostos, quer no plano metafísico quer na sua metodologia. A ciência procura a pesquisa permanente dos fenómenos; da moral religiosa vem a revelação única, uma explicação sobrenatural da realidade do mundo e da vida, fixando limites imutáveis e por isso muito lentamente vai havendo modificações ao longo dos séculos.
           Mas apesar de muitas dificuldades e sacrifícios para muitos, as sociedades foram­‑se modificando, actualizando conceitos de que careciam, para melhorar até a dependência indigente de muitos, que viviam no sub limiar da condição de homens, e por fim chegamos, à sociedade actual que dá lugar à razão e à liberdade, dentro de um espírito humanista que orienta o progresso. Chegamos àquele ponto em que o homem decide o seu bem-estar, quer actual quer futuro. E a contracepção faz parte desta visão alargada dos tempos actuais e dos tempos futuros.

 

Evolução Histórica da Contracepção

 

O recurso a vários métodos contraceptivos foi uma prática que se iniciou desde tempos ancestrais.
          Já na Bíblia se faz a descrição do coito interrompido, quando vem relatado a história de Onã, segundo filho de Judá, como podemos ler neste documento com toda a facilidade.
           Onã decidiu após a morte do seu primeiro irmão não cumprir a thorah (lei judaica), negando-se a dar um filho à sua cunhada, viúva de seu irmão, e educá-lo como se fosse filho do defunto. E vem então descrito na Génese:”sabendo que a prole não seria sua, quando entrava na mulher de seu irmão, derramava-se na terra para não dar prole ao irmão”.
           Outras práticas baseadas na aplicação de unguentos à base de raízes secas, vem também descritas no livro da Génese
           Mas já no antigo Egipto (1850 a.C.) há relatos de métodos usados localmente, com a aplicação vaginal de pastas, feitas à base de excrementos de crocodilo e elefante ou o uso de pessários, utilizando mel e pequenos fragmentos da árvore acácia que contem goma-arábica e liberta ácido láctico depois de fermentar. Esta combinação, mel com propriedades adesivas e o efeito espermicida do ácido láctico, tinham um efeito contraceptivo marcado.
          Documentos antigos da China e Índia relatam o recurso a fórmulas mágicas e o uso de amuletos pela mulher, depois de borrifados com sangue menstrual e também o uso de vários produtos de aplicação intra vaginal, como figos secos, cera de abelhas e algas.
           As práticas anticonceptivas chegaram à Europa através do Islão, cuja lei religiosa naquela época, não condenava o controle da natalidade nem o aborto, sempre que este fosse realizado por motivos fundamentados e antes dos quatro meses. Vários médicos árabes escreveram sobre os diferentes métodos de contracepção. O escrito mais famoso, talvez tenha sido o de Avicena (980 a 1037), que considerava a contracepção como uma parte legítima da prática médica, descrevendo diversos unguentos, barreiras vaginais e o coito interrompido.
          O coito interrompido conhecido por “azi” foi muito utilizado pelos muçulmanos e foi autorizado por Maomé. Foi também prática muito conhecida no ocidente durante séculos e já no século XVIII Casanova no seu livro de memórias faz referência a esta prática contraceptiva e comenta que é um procedimento decepcionante para o homem.
           O preservativo apareceu pela primeira vez na antiga Roma e era feito de bexiga de carneiro. Noutros países passou a ser feito de intestino de carneiro ou doutros animais.
           As suas principais desvantagens eram as costuras feitas à mão e serem muito caros.
           No século XVI este método atinge uma grande expansão, por ser utilizado na prevenção das doenças de transmissão sexual.
           Em 1564, Falópio aconselha a sua utilização na prevenção da sífilis e foi muito utilizado então pela aristocracia da época.
            O nome de condom dado ao preservativo não está muito bem esclarecido.
             Parece ter existido um médico militar com o nome de Condom, que aconselhou Carlos II a utilizá-lo, pois este monarca teria muitos filhos ilegítimos. Mas o mais provável é que o termo condom derive do latim condus ou mesmo do persa Kondus, que significa receptáculo para armazenar o grão.
            Com o advento da vulcanização do cautchu por Goodyear em 1839 aparecem preservativos com outra qualidade e mais finos e a sua utilização vulgariza-se, o que se torna ainda mais evidente quando aparecem os preservativos de látex no ano de 1930, sendo mais eficazes e com outra qualidade. Sendo fértil a imaginação humana, os japoneses introduzem no mercado condons com várias cores e com técnicas de markting vulgarizam a sua aplicação e o preservativo entra assim na história da contracepção e na prevenção das DTS, dada a sua boa eficácia contraceptiva.
          Como se utilizava na protecção contra as doenças de transmissão sexual, a sua venda é permitida mesmo naqueles países em que a legislação proibia a divulgação de métodos contraceptivos.
          O diafragma vaginal foi inventado na Alemanha por Mensiga em 1882 e a sua utilização estende-se à Inglaterra e Estados Unidos, onde alcança uma divulgação importante, mas apesar do conhecimento deste método a sua utilização nunca atingiu uma expansão importante, o mesmo acontecendo nos países latinos, em que as mulheres tinham repugnância nas manipulações vaginais para a sua introdução.
           Entre nós, portugueses, lembro aqui, a tese de doutoramento da Profª Madalena Botelho, em que estudou a utilização do diafragma por mulheres dum bairro pobre de Lisboa, com sucesso, no início dos anos 70.
Em 1935 foi proposto no Japão por Ogino e na Áustria por Knaus, a continência periódica. Ogino baseou este método na constatação operatória do corpo amarelo relacionando-o com a duração do ciclo das doentes operadas.

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